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O lado negro

Ter sucesso é a ambição de qualquer jogador. Por vezes a vida proporciona uma época brilhante para alguns e, durante um período, é tal o estado de ‘flow’ que tudo na sua vida acontece.

As performances dentro de campo são extraordinárias, as equipas ganham com a presença destes jogadores em campo, os média transformam-nos em deuses, os clubes apostam no merchandising e tiram o máximo partido da situação e rapidamente assistimos às renovações de contrato, às cláusulas milionárias e ao interesse de grandes clubes. Até aqui tudo bem: é preciso aproveitar a oportunidade e todos o devem fazer.

A única questão de que normalmente nos esquecemos é que lidar com sucesso é bem mais desafiante do que lidar com o fracasso ou a mediocridade. E quando não preparamos um jogador para lidar com sucesso, estamos claramente a dar um tiro nos pés, pois é como lançar um pássaro do ninho sem ele estar preparado para voar.

É fundamental criar no jogador raízes, sustentar um trabalho de força mental, protegê-lo e não expô-lo. Esquecemo-nos, por vezes, de que um jogador que alcança de repente o estrelato, precisa de consistência nos resultados, de crescer emocionalmente, de saber que a condição em que se encontra resulta também do contexto, como a equipa que o serve, que lhe dá força e o ajuda a brilhar. Esquecemo-nos que quando aproveitamos o momento para colocar o jogador a subir na carreira, isso também significa que ele vai para um sítio onde essas condições não existem, onde o contexto é diferente e onde aqueles que lá estão provavelmente não nutrem por ele o mesmo carinho.

Subir de patamar significa voltar à estaca zero, voltar ao banco na maioria dos casos, significa conquistar tudo outra vez, significa interiorizar uma nova cultura, conquistar novos adeptos, requer adaptação, flexibilidade, inteligência para lidar com o novo contexto, perder notoriedade e protagonismo. Se tudo isto é possível, também é verdade que um jogador deve ser preparado para isto e ainda assim conseguir fazer um excelente trabalho.

Quando nos preparamos em condições fáceis, temos um futuro difícil; quando nos preparamos para contextos desafiantes, temos o futuro mais facilitado. E isto serve para tudo na vida. Precisamos urgentemente de rever as nossas intenções, e colocar o jogador em primeiro lugar.

Susana Torres – Coach de Alta Performance